O quintal é o cômodo mais desperdiçado da casa — o arquiteto que virou isso do avesso

O quintal é o cômodo mais desperdiçado da casa — o arquiteto que virou isso do avesso

Enquanto a casa toda passa por reforma, planejamento de móveis e escolha de acabamento, o quintal costuma ficar para depois — ou nunca. Um arquiteto especialista no assunto explica por que essa conta não fecha.

CasaCidade ·

Reforma de sala, cozinha planejada, banheiro revestido do chão ao teto — e o quintal? Na maioria das casas brasileiras, ele vira o depósito informal da reforma: o resto do entulho, o vaso que não coube em lugar nenhum, o varal que ninguém quis colocar na área de serviço. O arquiteto Paulo Tripoloni discorda dessa hierarquia, e o argumento dele é direto: o tamanho do espaço não é o que determina seu valor. É a funcionalidade.

"O projeto precisa refletir a forma como cada pessoa vive a casa", resume o profissional, que dedica atenção especial a dois cômodos que, segundo ele, "contam muito sobre a forma como uma família vive a casa": a cozinha e o quintal.

Por que o quintal costuma ser esquecido

A resposta é simples e tem nome: prioridade de orçamento. Quando a reforma aperta o bolso, o quintal é o primeiro item cortado — afinal, "dá para deixar como está" parece mais fácil de engolir do que abrir mão do piso da cozinha. O problema é que essa lógica ignora o quanto um quintal mal aproveitado custa em qualidade de vida, todos os dias, silenciosamente.

Cultivo — o espaço que rende sem ocupar

A primeira recomendação prática é reservar um canto, por menor que seja, para ervas aromáticas — alecrim, manjericão, hortelã. Além de uso na cozinha, plantas aromáticas exigem pouco espaço e retorno é imediato. Árvores frutíferas e espécies ornamentais entram na sequência, criando composições que mudam ao longo das estações — o quintal literalmente parece outro em cada época do ano.

Espaço para crianças e pets, sem virar depósito de brinquedo

Gramado e áreas sombreadas resolvem boa parte do problema de segurança para quem tem criança pequena ou animal em casa. Pisos que reduzem impacto de queda evitam acidente sem precisar de tapete de EVA colorido espalhado pelo quintal. Um ponto que passa batido: nem toda planta bonita é segura — vegetação tóxica para pets deve ser evitada já no projeto, não descoberta depois de uma emergência veterinária.

Cinco estratégias do projeto (segundo o arquiteto):

Cultivo — ervas aromáticas, árvores frutíferas, composições sazonais
Crianças e pets — gramado, sombra, piso antiderrapante, vegetação não tóxica
Paisagismo visual — combinação de espécies, volumes e texturas como "quadro vivo"
Pátio de recepção — mesa, espreguiçadeira, área gourmet, insolação e drenagem calculadas
Área coberta — cobertura retrátil de vidro, lounge, cozinha externa, continuidade visual com o interior

Paisagismo como composição, não decoração avulsa

Em vez de comprar vasos isolados e distribuir pelo quintal sem critério, a recomendação é pensar em combinação: espécies, volumes e texturas verdes que, juntos, formam o que o arquiteto chama de "um quadro vivo que acompanha as mudanças da natureza durante o ano". Isso muda o resultado sem necessariamente mudar o orçamento — a diferença está no planejamento, não no valor gasto em muda.

O pátio que recebe visita sem parecer improviso

Mesa, espreguiçadeira e área gourmet fazem parte da lista, mas o detalhe que separa o pátio funcional do pátio decorativo é técnico: insolação e drenagem calculadas antes de definir onde vai cada elemento. Um espaço de recepção mal posicionado em relação ao sol vira inutilizável seis meses por ano — e isso só aparece depois de pronto, quando já não dá para mudar sem quebrar de novo.

Materiais que aguentam o clima brasileiro

Pisos antiderrapantes e resistentes a variação climática são a base — chuva de verão e sol direto castigam material errado rápido. Deck de madeira funciona bem quando a manutenção é levada a sério (impermeabilização periódica evita apodrecimento). Para quem quer área coberta sem perder luz natural, cobertura retrátil de vidro garante continuidade visual entre dentro e fora da casa — o quintal deixa de ser "lá fora" e passa a ser extensão do ambiente interno.

O quintal não precisa ser grande para valer a pena. Precisa parar de ser tratado como o resto da reforma.

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