R$ 7 bilhões por ano — quanto você paga na conta de luz para cobrir o "gato" que não é seu
Distribuidoras transferem para as tarifas mais de R$ 7 bilhões em energia roubada por ano. São 25 mil ocorrências — quase três por hora. E parte da sua fatura já está bancando isso há anos.
Você paga a sua conta de luz em dia, não faz "gato", não adultera o medidor. Isso não importa. Parte da sua fatura está cobrindo exatamente o que você não fez. Dados apresentados pela ANEEL e pela Abradee na Câmara dos Deputados esta semana confirmam o que o setor elétrico sabia e o consumidor médio ignorava: as perdas não técnicas — o nome técnico para furto de energia — custaram R$ 10,3 bilhões em 2024, dos quais R$ 7,1 bilhões foram transferidos para as tarifas. Os outros R$ 3,3 bilhões ficaram com as distribuidoras — prejuízo que elas recuperam de outra forma, em outro ciclo tarifário.
Traduzindo: não existe conta de luz sem o componente furto embutido. Você paga. O ladrão consome. A distribuidora faz o meio de campo.
O tamanho do problema — em terawatts, não em anedota
Quarenta terawatts-hora perdidos em 2024. Esse é o volume de energia que saiu das usinas, cruzou linhas de transmissão, chegou às redes de distribuição — e simplesmente desapareceu antes de o medidor registrar. 6,6% de toda a energia injetada no país foi consumida sem ser paga.
Para ter uma referência: o Brasil inteiro consome cerca de 600 TWh por ano. Quarenta terawatts de furto equivalem ao consumo elétrico de um estado de porte médio. Some-se a isso mais de 25 mil ocorrências de furto registradas só em 2025 — uma média de três por hora, sem contar fins de semana nem feriados.
Onde o problema é mais grave
A distribuição geográfica não surpreende quem conhece a realidade das distribuidoras regionais. A região Norte registra uma média de 19,5% de perdas não técnicas. O Sudeste, 6,6%. Uma distribuidora do Amazonas e outra do Rio de Janeiro lideram o ranking nacional.
Os números não são abstratos. A gerente de regulação econômica da ANEEL, Flávia Pederneiras, foi direta na audiência: "A tarifa da Amazonas Energia poderia ser praticamente 13% menor se não fossem os furtos de energia elétrica. Ou seja, a cada R$ 8,00 da tarifa que o consumidor lá do Amazonas paga, R$ 1,00 vai para bancar o furto de energia." A Light, no Rio, teria tarifa 9,1% mais barata sem o mesmo problema.
São consumidores que, muitas vezes nas faixas de renda mais baixa, pagando mais caro exatamente porque moram onde a infraestrutura de controle é mais precária.
Como a ANEEL decide quanto você paga
A lógica do repasse tarifário não é simples nem totalmente injusta — é um benchmarking entre as 51 distribuidoras do país. Quanto mais complexa a área de concessão (urbanização densa, favelas, areas rurais), maior o limite de perda que a agência considera "aceitável" para repasse.
Na prática: a distribuidora que não consegue combater o furto além do índice regulatório absorve o excedente no próprio resultado. A que fica abaixo do limite embolsa a diferença. O consumidor paga o piso regulado independentemente do endereço. Quem mora em área de alto índice de furto, paga mais. Quem mora em área controlada, paga menos — mas ainda paga.
A lei que chegou — e o que muda
Em 2025 foi sancionada a Lei nº 15.181, que ampliou as penalidades para crimes de furto e roubo de energia. O representante da Abradee na audiência, Onofre de Albuquerque Neto, a citou como medida esperada para reduzir os índices nos próximos anos: "A gente precisa avançar nesse tema para avançar na legalidade do Brasil."
Leis mais duras ajudam — mas o histórico do setor sugere que a mudança estrutural vem mais de tecnologia (medidores inteligentes, telemetria em tempo real) do que de legislação. Distribuidoras que investiram em smart meters viram os índices cair. As que não investiram continuam registrando três furtos por hora.
• Perdas não técnicas em 2024: 40 TWh (6,6% de toda a energia do país)
• Prejuízo total: R$ 10,3 bilhões
• Repassado para tarifas: R$ 7,1 bilhões
• Absorvido pelas distribuidoras: R$ 3,3 bilhões
• Ocorrências em 2025: 25 mil casos (~3 por hora)
• Região Norte: 19,5% de perdas não técnicas
• Tarifa da Light poderia ser 9,1% mais barata sem furtos
• Tarifa da Amazonas Energia poderia ser 13% mais barata
Você paga a conta, não faz gato, e ainda financia quem faz. A única diferença real entre países com tarifas baixas e países como o Brasil — onde 6,6% da energia some antes de ser medida — é quanto desse custo vai parar no seu bolso. A resposta, aqui, é R$ 7,1 bilhões por ano. E subindo.